
A EFAPE realizou, na terça-feira, 2 de junho, uma formação presencial voltada à Educação Escolar Indígena, reunindo profissionais que atuam direta e indiretamente com as escolas indígenas da rede estadual paulista. O encontro teve como objetivo aproximar supervisores, Professores Especialistas em Currículo, equipes administrativas das Unidades Regionais de Ensino e formadores das realidades vividas nos territórios, fortalecendo uma educação específica, diferenciada, intercultural e conectada aos saberes tradicionais.
A programação teve abertura institucional conduzida pela Diretoria de Educação Especial e Inclusão (DIESPI) e pela Coordenadoria de Educação Inclusiva (COEIN), setores do órgão central responsáveis pelo acompanhamento da modalidade Educação Escolar Indígena (EEI) na rede estadual de ensino. Em seguida, os formadores da EFAPE conduziram um momento de acolhimento, seguido de uma roda de conversa com professores indígenas e de oficinas dedicadas à troca de experiências entre os servidores que atuam com a EEI.
O encontro contou ainda com a roda de conversa “Reflexões sobre a Educação Escolar Indígena no Estado de São Paulo”, com a participação dos professores indígenas Zélia Luiz e Vlademir Isac, e mediação de Maria Fernanda Degan, técnica da Coordenadoria de Educação Inclusiva (COEIN).
Dados apresentados durante o encontro mostram que a Educação Escolar Indígena na rede estadual paulista atende 1.023 estudantes em 42 escolas, distribuídas por 13 Unidades Regionais de Ensino, com atuação de 358 docentes. Atualmente, a rede atende estudantes de cinco etnias: Guarani Mbyá, Tupi Guarani Nhandewa, Krenak, Kaingang e Terena. Os números reforçam a importância de formações que articulem dimensões pedagógicas, culturais e institucionais, considerando as diferentes realidades dos povos indígenas no estado.
Formação como espaço de escuta e troca
Do ponto de vista da formação, Micheli Silva, professora e formadora da EFAPE na Coordenadoria de Formação e Apoio Administrativo Escolar (COAAD), destacou o caráter pioneiro da iniciativa. Segundo ela, o encontro foi pensado como um espaço de troca entre os profissionais da rede e as vivências dos territórios indígenas, permitindo discutir os pilares que organizam a Educação Escolar Indígena e os desafios enfrentados no cotidiano das escolas.
“Hoje tivemos um encontro muito rico, com uma grande troca e um grande aprendizado”, afirmou Micheli. Para a formadora, a ação representa um primeiro passo para consolidar, dentro da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, um olhar específico para essa modalidade de ensino. “É a primeira vez que esse movimento acontece na Secretaria da Educação de São Paulo. Então, é um primeiro passo para uma pauta extremamente importante”, completou.
A importância da escuta também foi destacada por Zélia Luiz, liderança Terena da Aldeia Ekeruá, na Terra Indígena Araribá, em Avaí (SP), uma das convidadas do painel “O que há de específico na Educação Escolar Indígena?”. Com 21 anos de experiência na modalidade, ela afirmou que o encontro responde a uma reivindicação dos professores indígenas do estado, que buscavam uma formação voltada diretamente à área. Zélia destacou ainda que, graças à modalidade, a língua Terena foi revitalizada em seu território.
“Os supervisores e PECs que estão aqui presentes hoje vieram conhecer um pouco mais das nossas realidades e das nossas demandas”, afirmou Zélia. Segundo ela, a proposta é aproximar esses profissionais das especificidades do trabalho desenvolvido nas escolas indígenas e fortalecer a compreensão sobre as realidades vividas pelas comunidades.
Cada aldeia tem sua realidade
A necessidade de reconhecer as diferenças entre territórios, escolas e comunidades também foi apontada por Vlademir Isac da Silva Lima, professor Tupi da Aldeia Karugwá, na Terra Indígena Karugwá, em Barão de Antonina (SP). Professor com 21 anos de experiência na Educação Escolar Indígena, ele destacou que cada aldeia possui demandas próprias, o que torna essencial a aproximação entre educadores, gestores e Unidades Regionais de Ensino.
“Cada aldeia e cada escola têm uma realidade diferente, que exige um olhar atento à vivência local”, afirmou Vlademir. Para ele, o encontro contribui para ampliar a compreensão sobre a vivência nas aldeias e fortalecer o trabalho conjunto entre escolas indígenas e rede estadual. “A gente também tem que ensinar e preparar os nossos alunos para o mundo lá fora. Mesmo já sabendo bastante, a cada encontro a gente aprende algo novo”, completou.
Além de reconhecer e valorizar a cultura dos povos indígenas, a formação discutiu também o papel da escola na preparação dos estudantes para diferentes contextos de aprendizagem e convivência — uma reflexão que permeou as atividades como parte de uma educação que respeita os territórios e, ao mesmo tempo, amplia oportunidades para os alunos indígenas dentro e fora das aldeias.
Atuação da rede no cotidiano das escolas
Para Cláudia Irene de Oliveira Lima, Professora Especialista em Currículo da Unidade Regional de Ensino de Miracatu, o encontro representa um avanço importante na formação dos profissionais que acompanham as escolas indígenas. Ela atua com Educação Escolar Indígena desde 2021, quando passou a acompanhar essas unidades escolares e segue atuando com essa temática no Núcleo Pedagógico da URE.
“Essa é a primeira formação presencial de Educação Escolar Indígena de que participo. Considero um grande fortalecimento para nós, porque esse compartilhamento com os demais profissionais que atuam conosco enriquece muito o nosso trabalho”, afirmou Cláudia. A professora também destacou que já participou de outras formações da EFAPE, voltadas à Qualidade de Aula e Desenvolvimento Curricular, mas ressaltou a importância de uma formação específica dedicada à Educação Escolar Indígena.
O encontro também aproximou profissionais da área administrativa das especificidades da modalidade. Para Shirley Aparecida de Lima Coelho, Chefe do Serviço de Pessoas da Unidade Regional de Ensino de Registro, a formação contribui para qualificar o atendimento prestado aos professores indígenas e às escolas.
“A importância desse encontro está na troca de informações e de conhecimento, e na aproximação com uma realidade da qual o setor administrativo, às vezes, não está tão próximo”, afirmou Shirley. Segundo ela, ao receber essas informações, as equipes administrativas passam a ter mais condições de atender melhor os professores e, consequentemente, os estudantes das escolas indígenas.
Ao longo do dia, os participantes também acompanharam a oficina “Trocando saberes e práticas sobre a Educação Escolar Indígena”, voltada à reflexão sobre o papel dos profissionais da rede no fortalecimento dos pilares da modalidade. A atividade buscou articular as dimensões pedagógicas, culturais e institucionais presentes no cotidiano das escolas indígenas, a partir da escuta dos profissionais da rede e das equipes que acompanham essas unidades.
A formação reforça o compromisso da EFAPE com a formação continuada dos profissionais da rede e com o fortalecimento de práticas que reconheçam a diversidade cultural, os saberes tradicionais e as especificidades da Educação Escolar Indígena.